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Anitta expõe ao mundo o Brasil sem filtro de 'Vai malandra'
Sexualização elevada à máxima potência? Sim. Objetificação do corpo da mulher? Sim. Tem tudo isso no clipe de Vai malandra

12/19/2017 às 8:42 PM 12/19/2017 às 8:52 PM

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Publicada por: Francisco Silva
Fonte: G1

O clipe de Vai malandra – assunto dominante na web desde ontem, 18 de dezembro, dia em que foi lançado com forte artilharia de marketing – oferece munição pesada para os detratores de Anitta. Para quem se incomoda com a projeção internacional obtida pela cantora e compositora carioca ao longo deste ano de 2017, a batida do funk e a profusão de bundas femininas são argumentos por si só indefensáveis entre os críticos dessa música pop brasileira eletrônica que ignora as tradições melódicas e harmônicas da MPB.

Sexualização elevada à máxima potência? Sim. Objetificação do corpo da mulher? Sim. Tem tudo isso no clipe de Vai malandra, última música de CheckMate, projeto com o qual Anitta lançou uma música inédita por mês em tom globalizado, com vídeos e conexões com astros internacionais. Sem falar que o diretor norte-americano do vídeo, Terry Richardson, está envolvido em acusações de assédio sexual.

Anitta em cena de clipe de "Vai Malandra" (Foto: Reprodução/Instagram)

Mas o buraco é mais embaixo. Ou mais em cima, se levado em conta que o clipe de Vai malandra – ao contrário do que sugeriram há meses as primeiras apelativas imagens, reveladas fora de contexto – soa coerente com a estratégia de uma artista que pensa cada passo da carreira (e, nesse sentido, há muito de Marisa Monte em Anitta, por mais absurdo que essa conexão possa parecer).

No vídeo da música, gravada pela cantora com o funkeiro brasileiro MC Zaac e com o rapper norte-americano Maejor (com participações de Tropkillaz & DJ Yuri Martins), Anitta expõe ao mundo a imagem de um Brasil real, mas dentro dos códigos do pop gringo. Embora reconecte Anita de volta ao universo do funk carioca, a gravação de Vai malandramira o mercado internacional – alvo preferencial da artista nos últimos dois anos, sobretudo neste já agonizante 2017. Não é à toa que há as intervenções em inglês do rapper e produtor musical Maejor, que já sinalizara admiração pelo batidão do funk fluminense em 2016 com remix de Baile de favela.

Vai malandra parte do Brasil, mais especificamente da cidade do Rio de Janeiro (RJ), para o mundo, sem lançar mão dos habituais cartões postais cariocas e sem veicular visão romantizada das comunidades. Gravado na favela do Vidigal, situada na Zona Sul do Rio, o clipe exporta a visão de uma comunidade sem maquiagem. É a vida como ela é. Sem filtro. Com corpos à mostra, pois a sexualização cada vez mais precoce de meninas e meninos é fato, é realidade.

A recusa do uso do photoshop não se limita às imagens da cantora, honesta ao se permitir mostrar com celulite. A favela de Anitta não tem photoshop. Aparecem lá as construções mal-acabadas, as meninas nas garupas dos mototáxis e, sim, corpos masculinos. Exibidas na laje, as bronzeadas bundas femininas dominam a cena, mas rapazes sarados também enfeitam a paisagem sem retoques do clipe.

O que talvez incomode em Vai malandra é a exposição de realidade nua e crua em que muitas mulheres permitem a objetificação do próprio corpo – e às vezes com orgulho dessa exposição (atitude personificada pela personagem Carine, vivida pela atriz Carla Diaz no núcleo do morro fictício que agitava a trama da recém-terminada novela A força do querer). A malandragem de Anitta é se apropriar dessa realidade, na qual emergiu, para alicerçar carreira que já alcançou picos de visibilidade mundial até então inimagináveis para uma funkeira.

Capa do single Vai malandra, de Anitta (Foto: Divulgação)

Capa do single Vai malandra, de Anitta (Foto: Divulgação)

Anitta é malandra no bom sentido. Como também foram malandros nesse mesmo bom sentido os sambistas dos anos 1930 que eram perseguidos pela polícia com a mesma fúria e com o mesmo preconceito com que Anitta é atacada pelos haters e ratos de redes sociais. Porque uma parte do Brasil teima em negar a cultura de outra parte desse mesmo país, e não por acaso Anitta faz sutil alusão ao projeto de lei que propõe a criminalização do funk ao aparecer sentada em moto cuja placa é ANT 1256 (o número desse projeto). Também não por acaso, a imagem de cantora na moto está estampada na capa do single Vai malandra.

Com Vai malandra, Anitta reafirma essa cultura do funk e da favela, esse Brasil invisível (para as elites) das lajes, e propaga sem filtro essa identidade nativa sem ignorar os códigos do universo pop internacional. Vai, Anitta!

Publicado por: Francisco Silva

Proprietário da web Rádio Amazônia Central, Acadêmico em sistemas de informação 8º período (1/2018) e Editor de imagens. WhatsApp (69) 9 9283-9969. CV: http://lattes.cnpq.br/4738070963523179
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